Sombras e Devaneios

Meu conto torto Um poema morto Ou a idéia singela E um rápido aborto.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Lápis

Tinha mania de apontar lápis, vários de uma vez. Gostava de deixá-los enfileirados na mesa com suas pontas perfeitas viradas para janela. As lascas de madeira que sobravam eram guardadas em uma caixa de metal destinada antigamente para guardar diversos tipos de chá. O cheiro agradava-lhe, sempre que algo o importunava corria para sua caixa e cheirava as lascas e pontas quebradas até a calma invadir-lhe a alma. Aquele era seu mundo secreto.

Os amigos geralmente lhe davam apontadores e caixas de lápis importados nas datas festivas. Os lápis ele mantinha em uma espécie de santuário dentro da gaveta de sua mesa, os importados eram como uísque, quanto mais tarde apreciados melhor. Já os apontadores eram esquecidos no fundo do armário, não gostava deles, eram mecânicos e frios de mais. Para apontar bem um lápis era necessário um afiado canivete e dedos bem precisos, os seus eram quase cirúrgicos.

Acreditava em seu íntimo que cada vez que apontava um lápis estava esculpindo uma obra de arte em madeira. Sua técnica fora desenvolvida durante muitos anos e o treinamento começara cedo, no colégio. Criara o hábito de apontar (muito bem) os lápis alheios em troca de pequenos favores, tais como a resolução de um dever muito difícil ou um pedaço de torta no intervalo das aulas. Quando foi capaz de comprar seus próprios lápis começou a guardar suas lascas e pontas depois de apontá-los. Não queria perdê-los. Chamou a caixa de metal de cemitério, para ele era onde enterrava todos os restos mortais dos seus rápidos momentos de alegria pura e cristalina. Cheirar aquelas lascas era reviver a calma de sua existência.

Um dia sentiu necessidade de alguém mais na sua vida, uma esposa talvez. Depois de pensar um bocado concluiu que a melhor mulher para ele deveria ser uma funcionária de uma papelaria de bairro. Começou a mandar flores para uma tímida jovem que trabalhava a poucas quadras de sua casa, em pouco tempo a coragem aflorou-lhe a pele e ele a convidou para tomar um sorvete na praça. O primeiro encontro foi algo mágico, conversaram sobre suas vidas, seus planos e coisas que gostavam de fazer, na despedida um gosto amargo brotou-lhes nos lábios, queriam a expectativa de um reencontro. Estavam apaixonados.

Todo ano ela lhe presenteava com um lápis e um canivete novos. Ele adorava, sentia que logo poderia mostrar a sua amada o precioso mundo que escondia na caixa de chá. Isto era, para ele, um passo tão grande em um relacionamento como o casamento. Finalmente decidiu, levou-a até sua casa e mostrou-lhe a caixa. Explicou-lhe como aquilo, se é que poderia chamar de simplesmente aquilo, era importante e ocupava um espaço na sua vida semelhante ao dela.

E ela explodiu em risos e movimentos frenéticos, não conseguia se conter! Eis que sua mão risonha em êxtase derrubou a caixa de metal. Toda uma vida de lascas espalhou-se pelo chão perdendo-se para sempre, nunca mais seria possível juntá-las e sentir aquele cheiro tão puro. A mão dele, furiosa, ardeu contra o rosto dela deixando além da marca avermelhada naquele rosto feminino um abismo entre a sua realidade e a sua paz.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Fumaça

Toda vez que ele fumava uma penumbra formava-se em torno de si. Era um toque sutil de mistério, uma fagulha de curiosidade que me embriagava como uma bela dose de uísque sem gelo. Esses momentos lembravam-me a época em que, por acidente infeliz, deixara meus óculos caírem no chão e ficara meio cega por uns dias, eram tempos em que as óticas não eram muito rápidas. Eu era bem nova, uns dezesseis anos, talvez mais, talvez menos. Como diria meu pai “dezesseis mais ou menos um e meio”. Nesses dias em que fiquei sem enxergar direito o mundo ganhou um véu diferente, nada era nítido suficiente e as ruas pareciam porções de água escura dançando suavemente ao sabor de uma leve brisa. O começo foi meio assustador, estava tão acostumada com a nitidez prática de meus óculos que o suave mistério instalado na minha vida tragou-me para um abismo de medo. Entretanto aos poucos aprendi a tatear nas névoas que se formavam a minha volta e consegui conviver mais tranquilamente com tudo aquilo.


Apesar de o cheiro incomodar-me no começo, a simples lembrança da época de meus dezesseis anos eclipsara qualquer desconforto, tornando a experiência de ficar ao seu lado durante suas tragadas nostálgica. Gostava de inserir-me na fumaça, impregnar-me do ar que saia de sua boca e fechar os olhos. Nesses momentos eu conseguia lembrar-me perfeitamente de todas aquelas imagens pouco detalhadas das semanas de minha míope névoa e sentia meus pés flutuando nas ruas enquanto apertava meus olhos para olhar alguns centímetros a frente. Ele, então, envolvia-me em seus braços e sussurrava algumas palavras com as quais eu nem sempre me importava. Todos meus sentidos eram atentos apenas às sensações oriundas de seus lábios esfumaçados e meu corpo inteiro entrava em êxtase quando me tocavam macios e quentes. O beijo sufocava-me, eu sentia a fumaça invadir-me os pulmões e expandir-se por todos meus órgãos, tentava respirar, mas não havia mais oxigênio apenas o momento da morte de todo meu presente.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Amnésia

Eu posso dizer que tentei, tentei olhar para trás e catalogar todos os acontecimentos, entretanto há um enorme abismo entre tentar e conseguir. Há as noites em que o sono não aparece e cada som torna-se um estrondo. É o barulho dos motores rasgando o asfalto da rodovia próxima, ou o preguiçoso ronronar do computador trabalhando esquecido em algum quarto. Todo e qualquer ruído é alto o suficiente para ser ouvido mesmo quando uma música qualquer salta em plano principal para tentar, em vão, embalar tentativas frustradas de simplesmente fechar os olhos e abstrair-se de todas as sensações.


Catalogar é metódico de mais, olhar mentalmente os fatos e lugares e atribuir-lhes datas, nomes ou algo semelhante desgasta. Às vezes penso que viver no meio do caos é deliciosamente natural, não saber ao certo onde começou e, conseqüentemente, não ter capacidade nenhuma de esboçar um fim (por mais simplório que talvez venha a ser). A existência é apenas um ponto atual numa linha torta e infinita. Para que nomear aquele rosto risonho perto de um monumento sem nome? As figuras são apenas um amontoado de cores dispostas de qualquer jeito.


Quão doloroso seria saber exatamente o momento em que se disse adeus para alguém? Saber a partir de que minuto nunca mais as mãos tão íntimas tocar-se-ão. É melhor apenas saber daquele momento flutuante e assim, como se um véu envolvesse tudo, lembrar-se vagamente dos dedos acenando para um rosto borrado. Eu tentei organizar as peças da minha cabeça, mas é inútil! Do que adianta recordar apenas para saber se todo o sentimento não mais existe? Minha existência tornou-se uma jangada, bem pequena, despedaçando-se em um enorme volume de água.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Retrato

É uma figura admirável sentada no jardim, um quadro pintado de realidade, suave como o suspiro da manhã fresca que a rodeia e denso como a noite que em algum dia penetrou-lhe na tinta. A sua mão alva brinca com os cabelos encaracolados, levemente acobreados pelo sol, tem os olhos fixos em algumas folhas jogadas sem ordem em cima da mesa de concreto das quais não consigo extrair informação alguma. Gostaria de ser alguma daquelas folhas, apenas para ter seus olhos deitados sobre mim, examinando-me minuciosamente, seus olhos...


Respira com aparente serenidade, confesso, é difícil descrevê-la, descrever seu comportamento, a posição de seu corpo. A sua volta existem o verde da grama e o cinza da pedra sobre a qual está sentada, daqui quase é possível confundi-la com a pedra. Entretanto a única coisa que consigo visualizar é sua figura, perante ela o verde e o cinza são meros borrões da realidade destorcida. O que me chama mais a atenção são seus cabelos, jogados pelas suas costas em cascatas caóticas até a cintura, eles emolduram seu rosto, tocando-lhe a face com delicadeza. Uma mecha está detida em seus dedos lânguidos que a jogam para cima e para baixo sem deixá-la escapar de si. Seus lábios quebram a harmonia de seus cabelos. Os lábios são vermelhos como o sangue que deve correr por suas veias, perturbadores, não pela cor forte, mas pelo simples e singelo mistério que exalam quando se abrem levemente para sussurrar exaustão ou qualquer outra expressão corriqueira.


Ah! Como a desejo! Seja brincando com seus cabelos macios, ou suspirando os mistérios de sua essência. Porém desejo-a com mais ardor olhando-me com aquelas janelas tão distantes e fechadas. Os seus olhos apenas se concentram nas folhas a sua frente, nos rabiscos incompreensíveis a minha sapiência. Eu sei. Nunca serei digno de seus olhos, de seus cabelos, muito menos de suas mãos descobrindo-me a face vagarosamente. Condenei-me a apenas observá-la no exato momento em que deixei que um espinho meu penetrasse-lhe o dedo. Então um filete de vida rubra escorreu-lhe e de seus olhos algumas lágrimas quentes escaparam para molhar-me o corpo. São essas lágrimas a única lembrança fixa e etérea que me resta de seus olhos. Meus eternos torturadores e acalentadores.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Talvez vingança

Chove lá fora, muitas gotas lavando o vidro da janela fechada com o frágil cadeado dourado. É irônica a tentativa dele de prender-me com um apetrecho tão clichê. Mas os clichês fazem parte da vida e o que se passa comigo não é muito diferente de vida no final das contas. Acordar todo dia rodeada por paredes encardidas, olhar pela janela trancada para um horizonte de merda, pintado porcamente com as cores do céu abatido. Mesmo no verão o céu é feio, distante, úmido e cheio de fungos. No começo eu lembro que me abatia facilmente com a presente situação, mas com o passar do tempo as coisas ficam mais calmas, anestesiadas. É como se tudo, de repente, fosse completamente normal, nada como o hábito para curar uma coisinha aqui, outra ali e criar uma rocha sobre qualquer imperfeição cotidiana.

Ele decidiu da noite para o dia que seria melhor para minha saúde prender-me nesse quarto com apenas um bloco de notas, um lápis e um apontador. Surreais eram seus olhos quando me comunicou meu destino, era uma tarde de outono, dourada e suave. Eu ri na sua cara, na verdade eu sempre duvidei de suas atitudes, nunca pensei que ele pudesse tomar uma de verdade. Era um homem cheio de palavras, muito bonitas por sinal, mas as atitudes se resumiam a rabiscar coisas em lugares e a andar sem rumo pelos corredores. Quando me mudei para sua casa eu era apenas uma menina sedenta por uma paixão de verão qualquer e, por que não, sexo.

Consegui tudo que pretendia e achei melhor sair de lá, mas ele foi me envolvendo com suas frases prontas, às vezes até mesmo com as incompletas, aquelas que ele inventava no banho ou enquanto tinha uma epifania no jardim e nunca conseguia terminar. Quase sempre me sentia sufocada com seu jeito rebuscado, eu queria ficar largada, jogada em qualquer canto ao ar livre. Ele queria me rodear de palavras, teoremas, filosofias. Enquanto eu pensava em línguas pelo meu corpo ele me entregava letras estranhas e forçava-me a esboçar um sorriso de satisfação. Eram aqueles olhos, aqueles olhos que manipulavam minhas expressões a cada espiadela em minha direção.

Um dia cai na besteira de procurar as línguas nas quais eu tanto pensava. Encontrei-as, mas ele viu as lambidas, todas. Sentiu-se ferido e uma sombra caiu sobre seu rosto. Passou de excêntrico a lunático. De letrado a metafórico. Não existiam mais os momentos de reflexão no jardim, cada espiadela era uma lâmina que me cortava o pescoço. Tentei fugir mais uma vez, mas sua indiferença atraiu-me. Fiquei, uma parte de mim precisava saber o que aquela mente pensava, tornei-me uma viciada em suas loucuras. Ele passava dias encurvado sobre a escrivaninha desenhando coisas que eu não conseguia ver. Até que um dia veio correndo em minha direção, eu ri, ele enfureceu e largou-me aqui.

Todo dia ele me obriga a escrever as mesmas coisas neste bloco imundo. Diz que eu preciso passar por esse ritual de limpeza. Todo dia eu descrevo minhas sensações e a cada dia o texto fica mais curto, mais frio, mais indiferente. Assim como ele. Meu mestre. Envolveu-me com suas letras difíceis, seus jogos de sedução e suas armadilhas. Talvez eu tenha aprendido. Quando ele resolver tirar-me daqui eu não sei o que pode acontecer, mas de algo eu tenho certeza, ele precisa de um ritual de limpeza e eu estarei apta para aplicá-lo com maestria.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Era

Ela olhava para tela do computador, os olhos fixos naquelas linhas tão afiadas. A respiração começava a falhar, aos poucos, como se o último fio de ar se esvaísse de seus pulmões comprimidos e a garganta se fechava para nunca mais abrir. Não podia saber se o que escorria de seus olhos eram realmente lágrimas, na verdade não sabia de nada. Por um instante infeliz seu corpo deixara de responder aos seus comandos, o lábio inferior tremia a cada tentativa de colocar um pouco de ar dentro de si... Já não importava tanto, realmente, respirar ou não, para que o esforço? Era inútil, a tentativa mais inútil de toda sua vida. E a vida mais inútil de toda sua tentativa.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

S

Suave, rápido e inesperado.
O som emerge do caos como uma rosa,
pétalas de algodão recolhidas a esmo.
Figuras sem ordem surgem
Incandescentes em meus sentimentos.
Mãos suaves como o lençol
que me diz bom dia, ou boa noite.
Suaves como a música que ouço quando
me perco em solidão.
Suaves como os sentimentos que crio
naquelas madrugadas longas...

Suave e sutil, sempre presente e singelo
sussurra em meus sentidos a síntese
de todas as imagens na memória...

Minha íris pelo chão, os cacos
e o espelho se recuperando
nenhuma regra ou corrente.
Só o sentido de apenas sentir,
por instinto, a suavidade
em cada vez que me olha...

sábado, 15 de novembro de 2008

A parte sem o todo

Foi em uma tarde calma e quente
que seus olhos se fixaram num ponto
fixo forjado, um espelho quebrado
e cacos espalhados no concreto enevoado.
Eram os nós de alguma coisa
rasgando a garganta... Tão fechada...
Eram réplicas de sua íris pelo chão
e apenas réplicas num mosaico de confusão,
dentre os cacos não havia cor
calor
nada.
Eis então, passos, ecos e mãos;
os lábios e a promessa...
A leve promessa do sorriso sem métrica,
Tão doce no meio do caos
da solidão.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Devaneio

O som balançava pelo quarto, bem alto, não se importava com os vizinhos, estava deitada na cama viajando pela sua cabeça, pensando em coisas além da realidade de olhos fechados e sentidos completamente aguçados. O calor seria inebriante se não fizesse sua pele melar com o suor, não gostava da sensação, não quando estava sozinha. Sozinha preferia o ar fresco, a pele bem lisa e a respiração calma, não ofegante como se cada bufada de ar em seus pulmões fosse uma faca fina em brasa. Por mais que o calor a fizesse ter ímpetos de se mover pela cama, rolar pelas cobertas perfeitamente esticadas na busca de uma posição menos incomoda nesse dia ela não tinha forças. Estava esgotada e entregava todas sua disposição restante para o som que invadia sua cabeça e remexia seu interior com sensações novas, estranhas, feito ondas de adrenalina percorrendo cada milímetro de seu corpo. Não sabia mais o que era realidade e o que era a música bem tocada e perturbadora, não distinguia mais onde começava seu corpo e onde começava o ar pesado e úmido de seu quarto, sabia apenas que, se ficasse deitada, em alguma hora de seus devaneios levitaria na espuma de suas fantasias. Era a voz, ou as mãos, ou ambas, de algum modo aqueles acordes e aquelas palavras ritmadas estavam deixando-a em um estado diferente do esperado quando se ouve uma música, sua respiração seguia a melodia e os lábios dublavam em silêncio. O calor potencializava a sensação de estar perfeitamente acompanhada. Deixou-se levar pela respiração, pela letra, os sussurros, suspiros, agudos, velozes, tudo foi caindo no êxtase fulminante, seu peito movia-se rapidamente, estava ficando sem ar. Suava muito, provavelmente já havia molhado a cama, as roupas... As roupas! Queria tirá-las todas, sentia-se presa, impossibilitada de seguir as cordas, sua pele queimava. Apertou as pálpebras com mais força, soltou um grito surdo, um suspiro de alívio e apertou o play novamente.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

E...

Quando a vi ela andava sob os raios dourados do sol da manhã, seus olhos contemplavam o nada a sua frente e as folhas estalavam suaves com seus passos distraídos. Eram seus braços que dançavam no ar, seus cabelos que brilhavam no movimento constante... Era qualquer coisa além da compreensão de um observador, além do entendimento dos leigos. Simplesmente o êxtase de uma epifania qualquer. E seu corpo dançava com a música que supostamente ouvia, seus olhos miravam o profundo de sua mente e os lábios dublavam uma poesia inconcebível. E fugia da realidade aquela figura singela e perturbada. Por fora tão serena e nos seus olhos tão soturna, era o contraste de seus impasses. Era apenas a música que fluía com o vento.

domingo, 5 de outubro de 2008

Bastava o olhar e o silêncio

Eu não queria abandoná-lo, nunca tal idéia passara pela minha cabeça... Vivíamos num silêncio mútuo desde o começo, mas não nos atrevíamos a mudar o curso das coisas por maior que fosse o nosso carinho. Mas o que eu digo? Mal inicio e já rego de mentiras as poucas linhas que espremo da minha memória. Não, não vivíamos, eu vivia. Eu vivia em um silêncio absoluto. Eu e somente eu, ninguém mais. Ele, bom, ele existia, mas comigo não vivia, para mim apenas existia em toda sua santidade, existia longe, além das minhas mãos e distante de mais dos meus sentimentos mais puros.

Eu não queria abandoná-lo, não podia deixar escapar metade da minha vida. Eu vivia em um silêncio absoluto, isolava-me de todas as possíveis relações humanas, abominava constantemente as conversas, limitava-me apenas a olhar. E o gelo foi se hospedando dentro de algo que ouso chamar vontade, frio e rigidez, nada mais. Nunca me passou pela cabeça a idéia de abandoná-lo, contudo nada fazia eu para mudar a real situação, eu era um ser seco e mudo e por mais que o adorasse eu não sabia como fazê-lo entender, eu não sabia como falar. Ao meu desejo bastava apenas o olhar e silêncio.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Batalha Mental

Então acabará o mundo em versos
Numa batalha épica com os números.
O caos áureo típico da razão
Degradando as marcas da solidão.
E os triângulos simbólicos da fé,
Que evanesce pelas línguas confusas,
Serão teoremas do passado provando
O que um dia se acreditou improvável.
E não haverá mais lógica ou verdade
Apenas os ossos frios das escritas
Tirados de poemas ou corolários
Na marcha do apocalipse acadêmico.

domingo, 21 de setembro de 2008

Nada

Seus olhos fugiram pelo horizonte

No azul claro de qualquer sonho

Naquelas linhas tortas

Simples e sãs.



E seus lábios cantavam alguns versos

Pequenos, tristes e simples.

Suas mãos congelavam

Ao tocar nada.



Nada, resultado daquele sonho,

Nada, paisagem de sua vida,

Nada que então procura

O olhar que foge.



Pelo horizonte e nos versos perdidos.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Como uma rosa frágil na neve

Os olhos sem movimento, a boca vermelha como rosas em primavera, o rosto virado para o Oeste, como se procurando algo diferente de tudo nesse mundo, sem movimentos salvo o vento leve desembaraçando seus cabelos. O céu pintado de vermelho, como um vaso de sangue derramando seu conteúdo, o sol adormecendo aos poucos, o fim do dia.

Suas mãos estavam apoiadas na grade da varanda, ajeitadinhas, a direita sobre a esquerda, vez ou outra virava para olhar se alguém vinha do lado de dentro do quarto. Ninguém. Não sabia há quanto tempo estava olhando para o por do sol, parecia tudo tão eterno! Pensava em todos os conhecidos, na família, nos momentos. Não via o motivo de tal fuga, ou de tal esquecimento, pegava-se tentando lembrar-se de algo acontecido em determinado dia, mas não conseguia, era tudo névoa!

O ar é tão frio e seco, congela minhas mãos, não consigo tirá-las dessa posição... Estranho, parece que estou a tanto tempo aqui, essa cena não muda, o dia não termina. Ai! Por que dói?

Afastou todas as dúvidas da mente, agora começava a se lembrar, apoiou as mãos na barriga, era uma dor muito forte, curvou-se desesperadamente, buscou apoio nas grades, avistou o abismo. Passos, gritou por socorro. Passos, ecos vindos de dentro do quarto escuro. Passos, se aproximando cautelosamente.

O que eu fiz?

Tudo ficou branco a dor ainda não passara por completo, levantou-se com certa dificuldade, era tudo neve, frio. Caminhou encurvada na imensidão branca. Silêncio nem vento, nem suspiros. Seus pés doíam, seu corpo pedia abrigo, sua boca pálida queria vinho, seus olhos cinzentos e sem movimento precisavam descansar. Silêncio. Lágrimas escorriam pela face. Não se conformava, não podia ser verdade, onde estava? Ao longe um sobrado, simples, no meio do branco infinito, com as portas abertas. Entrou, subiu as escadas segurando firmemente no corrimão, a dor já não existia, Abriu a porta de um quarto, uma cama e uma mesa com uma garrafa de vinho. Descansou os olhos, bebeu o vinho, a cor voltava à sua face.

Não posso aceitar...

Lágrimas escorriam, sua alma não aceitava. Avistou a porta da varanda, aos poucos se aproximou olhar uma paisagem sempre é bom. No Oeste o sol vagarosamente deitava-se no rubro horizonte do crepúsculo.

sábado, 6 de setembro de 2008

Pedra

Sou um ponto, ou melhor, uma linha curva semelhante a uma pálida bengala infestada de cupins. Grande parte da minha vida deixo meu corpo leve e comprido esticado em um fino colchão imerso na penumbra de um cubículo, cuja única janela é um espelho de corpo inteiro fixado na parede em frente a minha cama. Nas horas que os dedos dourados do sol iniciam sua batalha para penetrar no concreto de meu aposento, algo dentro de meu crânio desperta, fazendo minhas pernas curvas e cansadas rastejarem até a janela refletora.

A imagem que se apresenta aos meus olhos nublados repugnaria qualquer sorriso supérfluo, a barba mal feita, despontando teimosa na tez anêmica, faz do meu rosto uma manta áspera e parcialmente suja, clamando por uma camada delicada de água límpida. Minha expressão facial de nada é melhorada pelos meus lábios secos e finos, como um corte de navalha disforme, algo neles me lembra gotas tranqüilas e ácidas que corroem aos poucos a superfície, que tocam e deformam as palavras por eles faladas. Um aspecto observador pode resumir esta decadente face tímida tão enclausurada em si mesma que zomba da minha covardia social toda manhã.

Durante meus raros passeios pelos mantos de asfalto, percebo que olhares rápidos e doloridos pousam sobre minha figura doente. Poucos, porém, detêm-se mais aos detalhes rudes de meu corpo, como o nariz adunco e as mãos grandes de mais, atrapalhadas na dança do caminhar. São olhares em geral enjoados, não muito diferentes daqueles lançados a mim pela família e amigos (praticamente inexistentes), creio que fui um erro, um mau projeto da mulher que me jogou ao mundo.

Meu melhor momento é a noite, de preferência sem lua, em que o retrato mais comum em meu cubículo é um homem de idade razoável, com um nome bárbaro, cantarolando, em um sopro adocicado e inebriante, uma sinfonia qualquer, sentado em uma tosca escrivaninha. Em cima desta, uma folha em que rabisco, com traços leves, os distúrbios latentes e desejos comprimidos de um desiludido que anseia um dia ser dissecado. Porém é na forma fria de uma pedra que deposito todas as minhas esperanças físicas.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Murmúrios de uma Paisagem

A escrivaninha fica em frente a janela, a casa em cima de um morro razoável, da janela vê-se todo o vilarejo. Meu pai nunca me deixou olhar muito além, disse envenenar a alma, nunca entendi o propósito de tal afirmação. Morreu há três anos, na divisão dos bens entre os irmãos fiquei com a casa, agora poderia instalar meu escritório onde antes fora o escritório dele. Livros e mais livros velhos e empoeirados jaziam naquelas estantes tão fascinantes durante minha infância, limpei todos com o maior cuidado, levei dois dias, depois arrumei meus livros nos espaços vazios. Eram então um único conjunto, os livros velhos e os livros novos. Em menos de uma semana consegui deixar o antigo escritório com a minha cara, do meu gosto, o resto da casa não interessava.

O tempo passa rápido quando o trabalho é muito. Nem tempo de apreciar a vista magnífica da janela em frente a escrivaninha eu tive. Foi finalmente em um final de semana que a oportunidade surgiu. O céu estava claro depois do meio dia, ninguém na casa, o almoço de família que eu fizera já havia terminado e os parentes já haviam ido embora, subi para o escritório e fechei a porta, caminhei até a escrivaninha e sentei-me de um modo em que toda a paisagem cabia em meus olhos, as casinhas pequenas espalhadas pelos campos verdes, as árvores circulando todo o vilarejo, um paraíso.

Creio que foram mais de horas observando, quando dei por mim já passara das seis da tarde, o sol já havia se deitado e a lua começava a brilhar tímida no céu. O calor era insuportável. Levantei da cadeira e segui para fora de casa, andei um pouco até um dos morros mais altos do vilarejo (ficava a poucos metros de casa) e sentei-me na grama fresca. De lá a paisagem era ainda mais bonita e cada vez menos eu entendia o porquê de meu pai dizer envenenar a alma tão bela vista. Meus olhos pararam em um ponto ao longe, uma espécie de bosque, nunca havia estado lá, nem sabia de sua existência. As árvores eram altas e escuras, a lua não iluminava aquela parte da paisagem. Era tudo tão belo. As luzinhas das casas, as sombras negras das árvores. Levantei-me.

Minha cabeça estava confusa, não conseguia controlar meus próprios movimentos. Minhas pernas subiam mais e mais em direção ao topo maior que dava para um abismo, queria ver a paisagem, queria ver mais além do bosque. Caminhei, meus pés doíam, minhas mãos tremiam, o calor dera lugar ao frio, tudo parecia congelado, salvo as minhas pernas que continuavam decididamente sua caminhada para o topo do morro. Finalmente cheguei ao topo, a paisagem imensa à minha frente e o abismo profundo em baixo, meus olhos não mais diferenciavam as luzes das casas, eram todas um único mar pálido ao fundo de uma paisagem morta. Um calafrio subiu pela espinha, tudo era tão belo e único, queria fazer parte daquela magnitude, ser um suspiro do vento imortal. A paisagem envenena a alma...

sábado, 30 de agosto de 2008

Vácuo das Águas

No nosso silêncio mútuo de compreensão
Perderemos o nosso ar e afogar-nos-emos
Perante o vácuo incompreensível das angústias
Locus amoenus em pleno terror dos sonhos

Pelo corte fino da lâmina da adaga
Cujo brilho ofusca mentes desesperadas
Sorridente carrasco dos olhos fechados
Sacode as esperanças de um olhar perdido

A fuga confusa de uma mão enrugada
O reflexo jovem em mentiroso espelho
A seiva da árvore escorrendo em seu tronco
Atormentada imagem em moldura velha

Raízes cada vez mais profundas fixadas
Na lama fétida de um jardim esquecido
Nossos pés que vão pisando em gelo partido
Nossas folhas secas perante a falta d'água

No nosso silêncio mútuo de incompreensão
Perderemos o nosso ar e afogar-nos-emos
Perante o vácuo compreensível das angústias
Locus horrendus em pleno e belo desejo.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Uma Mão um Caderno uma Estante uma Escrivaninha a Luz a Janela o Exilio enfim

Era um mar de lembranças vagas que permanecia latente no desejo interior, o impulso que faltava para a grande obra ou um simples sorriso. A saudade já era apenas uma batida disfarçada do pulso e a sensação de não sentir, ou fingir não se importar, um pano de fundo perfeito para o cenário central. Mas sempre falta algo, aquela janela que se abre em algum dia desses, num minuto perdido. Sempre os minutos.

Meu conto torto

Um poema morto

Ou a idéia singela

E um rápido aborto.

Simples objetos e rápidas páginas amareladas, aquilo que é e o que este poderia ser, letras trocadas e reflexões demoradas de assuntos prosaicos. Um turbilhão sem aviso prévio e a vontade de penetrar em algo que ainda é apenas um ideal. Talvez o mais próximo que se chegue seja através das palavras escritas que uma vez lidas, organizadas e absorvidas (depois de devidamente saboreadas) realizam a escultura em névoa de uma silhueta qualquer.

Sempre, no entanto, faltarão aquelas coisas impossíveis, possivelmente escritas em uma carta secreta a alguém de confiança numa sexta feira simbólica. Sexta feira eterna de uma memória partida e distante, algo sem ordem, sonhos ou vida; apenas notas repartidas e tragos confusos. Sim, sempre a confusão e a espera frágil de um futuro minuto, talvez três.

Pulando de olhar em olhar, abraço em abraço, nada em nada. Apenas um pulo e apenas um suspiro, talvez em um desses saltos haverá um degrau e uma estante de vidro com uma garrafa de vinho fechada e sem saca rolhas. No fim, isto não é tudo que deveria ser, não é uma caneca, nem um pouco de café, talvez somente cem anos de solidão espremidos em três minutos furtados e devaneios quaisquer.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Seu microcosmo urbano...

Ela tinha a vida apertada nas mãos, os olhos vidrados no destino e dez reais na bolsa. Sapatos gastos de solas quentes e finas, um incômodo no canto do dedinho do pé esquerdo e a respiração falha compunham um conjunto interessante, um adorno inusitado nos lábios determinados a desabafar as frases que ensaiara em frente ao espelho durante alguns dias perdidos agora no passado. Era irônico, não podia deixar de ser, mas também era trágico, como podia ter acontecido? Esforçara-se tanto, dera tanto de si e do seu tempo (dizem por ai que o tempo é precioso, ela já não acreditava muito, na verdade acreditava apenas naquilo que podia tocar, mas isso já é uma outra história.) para tentar ter algo melhor. Chegou ao ponto de ônibus, devia esperar alguns minutos para então mergulhar num mundo heterogêneo, mais parecido com um zoológico, não gostava muito de andar de ônibus, sentia-se apertada, violentada com os odores e os empurrões ocasionais durante a trajetória, porém não havia muito mais o que fazer, ou era a grande caixa de metal ambulante ou sua determinação e coragem, adquiridas durante os longos dias de ensaio, jogadas fora. Os dez reais que carregava estavam partidos em uma nota de cinco, duas de dois e uma de um, a passagem pelas ruas da cidade custava os dois reais e mais alguns centavos, não tinha moedas, bom, pelo menos agora ganharia algumas, mas não saberia dizer se era uma vantagem, as moedas sempre escorriam pelos buracos das bolsas. Subiu no ônibus, pegou o troco, sentou-se e jogou os discos de metal escurecidos no grande estômago de pano que carregava, nunca mais os acharia. Assim como nunca mais acharia aquele sorriso que estava indo tentar recuperar, o sorriso que se perdera nas horas extras em busca de um aumento de renda. Pois, agora não havia mais sorrisos, renda ou horas extras, apenas os olhos vidrados no destino, sete reais e alguns centavos perdidos pela bolsa e a vida apertada nas mãos, vida esta que tanto desejava deixar escapar, assim, em um acidente fatal de uma caixa grande de metal.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Prece

A mãe dissera-lhe para ficar de joelhos durante a prece, fechar os olhos e comprimir seus suspiros em suaves ondas de pensamento violeta, voando tranqüilas para o infinito de sua imaginação concreta no céu desconhecido. Os lábios abriam-se levemente para liberar o êxtase que se transformava em sufoco, o grito mudo de satisfação em tão poucas palavras sem nexo colocadas uma diante da outra em uma fileira entoada por desentendimento. E as mãos estrangulavam o frágil cordão com contas marcando a pele e a carne com pequenas crateras vermelhas sem ardor, não havia ardor algum, apenas o incomodo de um imaginário manipulado.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

E voltam as Memórias de uma Ninfomaníaca

"Se eu amasse seus olhos como amo seu corpo, todas as minhas noites seriam banhadas de estrelas. Porém minha alma sofre deliciosamente ao perder o sangue do meu romantismo na escuridão."

- Uma personagem -

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Há tanto tempo...