Sombras e Devaneios
Meu conto torto Um poema morto Ou a idéia singela E um rápido aborto.
terça-feira, 1 de março de 2011
Reflexão
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
Sobre Pontes e Carros
Sentada no banco de trás do carro de seus pais os dedos pequenos e impacientes grudavam no vidro frio, estavam rodando há bastante tempo, a pequena perdida em seus pensamentos e os pais perdidos nas ruas pintadas de crepúsculo daquela cidade imensa. Ela nunca soubera exatamente a magnitude daquele conjunto de cimento que pulsava dia e noite nos jornais, nas rádios e no cotidiano de cada pessoa que por lá passava, sabia, sim, que era uma grande cidade, conhecida e admirada por muitos, temida por alguns e objeto dos sonhos de indefinidas pessoas. Todos os rostos que rapidamente passavam pelo seu vidro pareciam-lhe anônimos, vazios e desconfortavelmente apressados, não conseguia entender como alguém conseguia viver naquela adrenalina eufórica, provavelmente sofriam do coração, pelo menos era o que acreditava baseando-se nas sábias palavras de seu avô que pregavam que uma vida agitada e viciante acabava por maltratar este órgão tão vital. O avô já havia morrido há alguns anos, deixara nela uma ferida estranha mista de saudade e tristeza, entretanto sua pequena cabeça só entenderia mais tarde a real dor que esta lhe provocara.
Sobre lágrimas sabia um pouco, entendia que mamãe chorava quando brigava com o pai, figura sempre autoritária perante os outros, mas perto de si tão sorridente e gentil. Ela pensava que, talvez, se sua mãe visse seu pai mais vezes como ela via, não chorasse tanto. Gostava do rosto dele quando a colocava para dormir, nessas horas ele a lembrava o avô, sem máscaras, o semblante suave dava-lhe um pouco de sono que se consolidava quando ele lia, ou simplesmente falava, algumas histórias de lugares distantes e frios, ambos gostavam muito de lugares frios. Porém ela percebia que perto da mãe ele se armava com muitas camadas das quais não conseguia tirar um significado, estava sempre tenso, meio bravo e a voz não era aquela que a fazia viajar pela neve distante, nesses momentos queria que chegasse logo a hora de dormir para poder ter novamente o pai que tanto amava. Quando começavam a gritar no quarto ao lado do seu escondia-se em baixo das cobertas e evocava o rosto do avô dizendo-lhe que eles estavam apenas cantando para um passarinho mal criado voltar para seu ninho, assim conseguia finalmente embarcar no sono profundo.
Aquela tarde fora estranha, era um sábado no qual o pai resolvera que todos deveriam ir passear para olhar vitrines, ela gostava muito de olhar as lojas com roupas bonitas em grandes bonecas pálidas, porém a mãe ficava impaciente pois provavelmente perderia algum programa interessante que passaria na televisão. Como em quase todas as ocasiões, e esta não era uma exceção, o pai dava a palavra final saíram todos no carro da família em direção ao centro comercial mais próximo. Ficaram horas olhando os brilhos e as luzes das lojas, entraram em apenas uma na qual a mãe comprou-lhe uma tiara vermelha para usar na festa de Ano Novo que se aproximava, ficara tão bem com seus cabelos escuros que pediu para não tirar e assim foi andando com seu adorno novo e um sorriso no rosto. Pararam para tomar sorvete e ainda ficariam muito tempo se não fosse a visível irritação da mãe com o programa, foi então que o pai decidiu que era hora de voltar para casa, entraram todos novamente no carro e se perderam no caminho de volta.
Os dedos já haviam adormecido com o frio do vidro, ela estava cansada, queria sua cama, mas seu pai não conseguia achar o caminho de volta e sua mãe não parava de falar e soluçar. Eles estavam brigando e passando por várias pontes enquanto tentavam não gritar para não assustar a criança no banco de trás. Mas ela sabia o que estava acontecendo e ela sabia que chamar seu avô em seus pensamentos não os faria parar. Eram tão bonitos os prédios iluminados e as pontes cheias de luzes rápidas daquela cidade e era tão triste o ar que se impunha dentro daquela gaiola de metal ambulante, ela não entendia como podiam coexistir coisas tão antagônicas em um mesmo espaço naquele exato momento. Sua pequena cabeça tão singelamente enfeitada tentava descobrir o momento em que aquele homem, seu pai, deixara de ser a pessoa que a colocava para dormir e que lhe dera sorvete há algumas horas. Passavam por uma ponte muito iluminada e grandiosa quando um tremor tomou conta do carro, ela, pequena, teve medo de cair, a mãe se calou e o pai jogou seus olhos sobre aquela mulher por um instante, um olhar triste e vazio que fez, finalmente, a pequena no banco de trás entender que entre seu amado pai e sua mãe todas as pontes haviam tremido tanto que acabaram por partir.
terça-feira, 2 de novembro de 2010
Última noite
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
...
A chuva parou na caneca vazia. Vazia como estas mãos que escorregam pelos olhos úmidos, que imagem interessante aquela. Como pudera? Pequeninos cacos que vidro espalhados por todo chão, azulejos rubros de hemácias, onde estivera? Onde estivera sua consciência quando escorregaram os dedos firmes na pele branca? Os dedos? Não os dedos, os cacos. De seus olhos? Que importa! Agora tudo é névoa. Sem chuva, sem lágrimas... E o brilho? Que brilho? Besteiras folclóricas, não há brilho depois da escuridão, depois do vermelho latente. Há apenas o vácuo. E os sons? Estão chegando os sons do horizonte, posso vê-los voando pelo céu. Não se pode ver os sons querida... Claro que sim, eles estão lá, oscilando num turbilhão, tão bonito olhar daqui. O baixo tem a forma de um beijo. O beijo que nunca mais sentirá. Nunca? Não. Estranho, percebo agora que o grito de angústia é vermelho e voa tão mais rápido que o baixo...
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Trecho a ninguém
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Não me deixe...
domingo, 20 de junho de 2010
Nota
Fugir de tudo e de todos, correr descalça pelas calçadas da memória, esquecer apressada as lembranças quebradas. Chorar rápido as alegrias perdidas. Escapar das garras do futuro e esconder-se dos lábios do passado. Parar no meio fio do tempo para apenas contemplar o rosto confuso do presente e ouvir o choro triste das cordas que não mais querem cantar.
Estourar os tímpanos com notas distorcidas da minha música mal acabada. A guitarra jogada na areia movediça, engolida pela não vontade de criar. Os lápis e os papéis derretidos no ácido do bloqueio e o som de um osso torcido na angústia. Que voz estridente tem o nada que me traga vagarosamente!
Funde meu corpo no calor da desilusão, maculado pela culpa de ser tão passiva. Voam meus cabelos pelo céu rubro de meu sangue ralo derramado para suprir esforços fúteis. O supérfluo da minha existência é gritante, enquanto o sentido real da minha personalidade permaneceu mudo pelas décadas corridas em que pensei viver intensamente.
Matrizes
Quando acordei naquela manhã o mundo parecia ligeiramente diferente, algo mudara nas cores, não eram mais tão vivas como deveriam ser. Ignorando protestos do meu corpo pesado na cama vesti-me e sai para rua sem saber que o mais bizarro dos acontecimentos estava a minha espera. Matrizes gigantes cobriam por inteiro os transeuntes, nem seus rostos eram poupados. Mais estranho que isto era o que acontecia com os números destas matrizes quando alguém falava ou esbarrava em outra pessoa, eles mudavam rapidamente, num piscar de olhos. Continuei com minha caminhada, ainda meio zonzo de sono. Era estranho, pois eu não conseguia relacionar exatamente o modo como as matrizes mudavam com uma ação social específica. Subitamente meus olhos pousaram em uma matriz cuja maior parte dos números era zero e um sentimento de tristeza invadiu minha mente. Não pude conter as lágrimas que já escorriam pelo meu rosto descontroladas, precisava enxugá-las o mais rápido possível. Acelerado pela minha vergonha e fraqueza, procurei a loja mais próxima e me dirigi ao seu banheiro. Foi então que me espantei pela última vez no dia quando me dei conta que minha matriz não se refletia no espelho.
quarta-feira, 24 de março de 2010
Você pode
Você pode se esconder
Em um sorriso amarelo
Fugir em um barco de flores
Dormir num sonho doce
Mas não pode correr
Com os pés descalços,
Os olhos fechados
Ou as pernas dormentes.
Pode olhar o céu rindo,
Cantar as notas alegres
De uma melodia qualquer.
Pode falar mentiras quaisquer,
Profetizar besteiras fúteis,
Mas não pode mudar a voz
Que treme, falha e chora
Quieta em sua garganta.
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Lápis
Tinha mania de apontar lápis, vários de uma vez. Gostava de deixá-los enfileirados na mesa com suas pontas perfeitas viradas para janela. As lascas de madeira que sobravam eram guardadas em uma caixa de metal destinada antigamente para guardar diversos tipos de chá. O cheiro agradava-lhe, sempre que algo o importunava corria para sua caixa e cheirava as lascas e pontas quebradas até a calma invadir-lhe a alma. Aquele era seu mundo secreto.
Os amigos geralmente lhe davam apontadores e caixas de lápis importados nas datas festivas. Os lápis ele mantinha em uma espécie de santuário dentro da gaveta de sua mesa, os importados eram como uísque, quanto mais tarde apreciados melhor. Já os apontadores eram esquecidos no fundo do armário, não gostava deles, eram mecânicos e frios de mais. Para apontar bem um lápis era necessário um afiado canivete e dedos bem precisos, os seus eram quase cirúrgicos.
Acreditava em seu íntimo que cada vez que apontava um lápis estava esculpindo uma obra de arte em madeira. Sua técnica fora desenvolvida durante muitos anos e o treinamento começara cedo, no colégio. Criara o hábito de apontar (muito bem) os lápis alheios em troca de pequenos favores, tais como a resolução de um dever muito difícil ou um pedaço de torta no intervalo das aulas. Quando foi capaz de comprar seus próprios lápis começou a guardar suas lascas e pontas depois de apontá-los. Não queria perdê-los. Chamou a caixa de metal de cemitério, para ele era onde enterrava todos os restos mortais dos seus rápidos momentos de alegria pura e cristalina. Cheirar aquelas lascas era reviver a calma de sua existência.
Um dia sentiu necessidade de alguém mais na sua vida, uma esposa talvez. Depois de pensar um bocado concluiu que a melhor mulher para ele deveria ser uma funcionária de uma papelaria de bairro. Começou a mandar flores para uma tímida jovem que trabalhava a poucas quadras de sua casa, em pouco tempo a coragem aflorou-lhe a pele e ele a convidou para tomar um sorvete na praça. O primeiro encontro foi algo mágico, conversaram sobre suas vidas, seus planos e coisas que gostavam de fazer, na despedida um gosto amargo brotou-lhes nos lábios, queriam a expectativa de um reencontro. Estavam apaixonados.
Todo ano ela lhe presenteava com um lápis e um canivete novos. Ele adorava, sentia que logo poderia mostrar a sua amada o precioso mundo que escondia na caixa de chá. Isto era, para ele, um passo tão grande em um relacionamento como o casamento. Finalmente decidiu, levou-a até sua casa e mostrou-lhe a caixa. Explicou-lhe como aquilo, se é que poderia chamar de simplesmente aquilo, era importante e ocupava um espaço na sua vida semelhante ao dela.
E ela explodiu em risos e movimentos frenéticos, não conseguia se conter! Eis que sua mão risonha em êxtase derrubou a caixa de metal. Toda uma vida de lascas espalhou-se pelo chão perdendo-se para sempre, nunca mais seria possível juntá-las e sentir aquele cheiro tão puro. A mão dele, furiosa, ardeu contra o rosto dela deixando além da marca avermelhada naquele rosto feminino um abismo entre a sua realidade e a sua paz.
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
Fumaça
Toda vez que ele fumava uma penumbra formava-se em torno de si. Era um toque sutil de mistério, uma fagulha de curiosidade que me embriagava como uma bela dose de uísque sem gelo. Esses momentos lembravam-me a época em que, por acidente infeliz, deixara meus óculos caírem no chão e ficara meio cega por uns dias, eram tempos em que as óticas não eram muito rápidas. Eu era bem nova, uns dezesseis anos, talvez mais, talvez menos. Como diria meu pai “dezesseis mais ou menos um e meio”. Nesses dias em que fiquei sem enxergar direito o mundo ganhou um véu diferente, nada era nítido suficiente e as ruas pareciam porções de água escura dançando suavemente ao sabor de uma leve brisa. O começo foi meio assustador, estava tão acostumada com a nitidez prática de meus óculos que o suave mistério instalado na minha vida tragou-me para um abismo de medo. Entretanto aos poucos aprendi a tatear nas névoas que se formavam a minha volta e consegui conviver mais tranquilamente com tudo aquilo.
Apesar de o cheiro incomodar-me no começo, a simples lembrança da época de meus dezesseis anos eclipsara qualquer desconforto, tornando a experiência de ficar ao seu lado durante suas tragadas nostálgica. Gostava de inserir-me na fumaça, impregnar-me do ar que saia de sua boca e fechar os olhos. Nesses momentos eu conseguia lembrar-me perfeitamente de todas aquelas imagens pouco detalhadas das semanas de minha míope névoa e sentia meus pés flutuando nas ruas enquanto apertava meus olhos para olhar alguns centímetros a frente. Ele, então, envolvia-me em seus braços e sussurrava algumas palavras com as quais eu nem sempre me importava. Todos meus sentidos eram atentos apenas às sensações oriundas de seus lábios esfumaçados e meu corpo inteiro entrava em êxtase quando me tocavam macios e quentes. O beijo sufocava-me, eu sentia a fumaça invadir-me os pulmões e expandir-se por todos meus órgãos, tentava respirar, mas não havia mais oxigênio apenas o momento da morte de todo meu presente.
domingo, 1 de fevereiro de 2009
Amnésia
Eu posso dizer que tentei, tentei olhar para trás e catalogar todos os acontecimentos, entretanto há um enorme abismo entre tentar e conseguir. Há as noites em que o sono não aparece e cada som torna-se um estrondo. É o barulho dos motores rasgando o asfalto da rodovia próxima, ou o preguiçoso ronronar do computador trabalhando esquecido em algum quarto. Todo e qualquer ruído é alto o suficiente para ser ouvido mesmo quando uma música qualquer salta em plano principal para tentar, em vão, embalar tentativas frustradas de simplesmente fechar os olhos e abstrair-se de todas as sensações.
Catalogar é metódico de mais, olhar mentalmente os fatos e lugares e atribuir-lhes datas, nomes ou algo semelhante desgasta. Às vezes penso que viver no meio do caos é deliciosamente natural, não saber ao certo onde começou e, conseqüentemente, não ter capacidade nenhuma de esboçar um fim (por mais simplório que talvez venha a ser). A existência é apenas um ponto atual numa linha torta e infinita. Para que nomear aquele rosto risonho perto de um monumento sem nome? As figuras são apenas um amontoado de cores dispostas de qualquer jeito.
Quão doloroso seria saber exatamente o momento em que se disse adeus para alguém? Saber a partir de que minuto nunca mais as mãos tão íntimas tocar-se-ão. É melhor apenas saber daquele momento flutuante e assim, como se um véu envolvesse tudo, lembrar-se vagamente dos dedos acenando para um rosto borrado. Eu tentei organizar as peças da minha cabeça, mas é inútil! Do que adianta recordar apenas para saber se todo o sentimento não mais existe? Minha existência tornou-se uma jangada, bem pequena, despedaçando-se em um enorme volume de água.
domingo, 14 de dezembro de 2008
Retrato
É uma figura admirável sentada no jardim, um quadro pintado de realidade, suave como o suspiro da manhã fresca que a rodeia e denso como a noite que em algum dia penetrou-lhe na tinta. A sua mão alva brinca com os cabelos encaracolados, levemente acobreados pelo sol, tem os olhos fixos em algumas folhas jogadas sem ordem em cima da mesa de concreto das quais não consigo extrair informação alguma. Gostaria de ser alguma daquelas folhas, apenas para ter seus olhos deitados sobre mim, examinando-me minuciosamente, seus olhos...
Respira com aparente serenidade, confesso, é difícil descrevê-la, descrever seu comportamento, a posição de seu corpo. A sua volta existem o verde da grama e o cinza da pedra sobre a qual está sentada, daqui quase é possível confundi-la com a pedra. Entretanto a única coisa que consigo visualizar é sua figura, perante ela o verde e o cinza são meros borrões da realidade destorcida. O que me chama mais a atenção são seus cabelos, jogados pelas suas costas em cascatas caóticas até a cintura, eles emolduram seu rosto, tocando-lhe a face com delicadeza. Uma mecha está detida em seus dedos lânguidos que a jogam para cima e para baixo sem deixá-la escapar de si. Seus lábios quebram a harmonia de seus cabelos. Os lábios são vermelhos como o sangue que deve correr por suas veias, perturbadores, não pela cor forte, mas pelo simples e singelo mistério que exalam quando se abrem levemente para sussurrar exaustão ou qualquer outra expressão corriqueira.
Ah! Como a desejo! Seja brincando com seus cabelos macios, ou suspirando os mistérios de sua essência. Porém desejo-a com mais ardor olhando-me com aquelas janelas tão distantes e fechadas. Os seus olhos apenas se concentram nas folhas a sua frente, nos rabiscos incompreensíveis a minha sapiência. Eu sei. Nunca serei digno de seus olhos, de seus cabelos, muito menos de suas mãos descobrindo-me a face vagarosamente. Condenei-me a apenas observá-la no exato momento em que deixei que um espinho meu penetrasse-lhe o dedo. Então um filete de vida rubra escorreu-lhe e de seus olhos algumas lágrimas quentes escaparam para molhar-me o corpo. São essas lágrimas a única lembrança fixa e etérea que me resta de seus olhos. Meus eternos torturadores e acalentadores.
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
Talvez vingança
Chove lá fora, muitas gotas lavando o vidro da janela fechada com o frágil cadeado dourado. É irônica a tentativa dele de prender-me com um apetrecho tão clichê. Mas os clichês fazem parte da vida e o que se passa comigo não é muito diferente de vida no final das contas. Acordar todo dia rodeada por paredes encardidas, olhar pela janela trancada para um horizonte de merda, pintado porcamente com as cores do céu abatido. Mesmo no verão o céu é feio, distante, úmido e cheio de fungos. No começo eu lembro que me abatia facilmente com a presente situação, mas com o passar do tempo as coisas ficam mais calmas, anestesiadas. É como se tudo, de repente, fosse completamente normal, nada como o hábito para curar uma coisinha aqui, outra ali e criar uma rocha sobre qualquer imperfeição cotidiana.
Ele decidiu da noite para o dia que seria melhor para minha saúde prender-me nesse quarto com apenas um bloco de notas, um lápis e um apontador. Surreais eram seus olhos quando me comunicou meu destino, era uma tarde de outono, dourada e suave. Eu ri na sua cara, na verdade eu sempre duvidei de suas atitudes, nunca pensei que ele pudesse tomar uma de verdade. Era um homem cheio de palavras, muito bonitas por sinal, mas as atitudes se resumiam a rabiscar coisas em lugares e a andar sem rumo pelos corredores. Quando me mudei para sua casa eu era apenas uma menina sedenta por uma paixão de verão qualquer e, por que não, sexo.
Consegui tudo que pretendia e achei melhor sair de lá, mas ele foi me envolvendo com suas frases prontas, às vezes até mesmo com as incompletas, aquelas que ele inventava no banho ou enquanto tinha uma epifania no jardim e nunca conseguia terminar. Quase sempre me sentia sufocada com seu jeito rebuscado, eu queria ficar largada, jogada em qualquer canto ao ar livre. Ele queria me rodear de palavras, teoremas, filosofias. Enquanto eu pensava em línguas pelo meu corpo ele me entregava letras estranhas e forçava-me a esboçar um sorriso de satisfação. Eram aqueles olhos, aqueles olhos que manipulavam minhas expressões a cada espiadela em minha direção.
Um dia cai na besteira de procurar as línguas nas quais eu tanto pensava. Encontrei-as, mas ele viu as lambidas, todas. Sentiu-se ferido e uma sombra caiu sobre seu rosto. Passou de excêntrico a lunático. De letrado a metafórico. Não existiam mais os momentos de reflexão no jardim, cada espiadela era uma lâmina que me cortava o pescoço. Tentei fugir mais uma vez, mas sua indiferença atraiu-me. Fiquei, uma parte de mim precisava saber o que aquela mente pensava, tornei-me uma viciada em suas loucuras. Ele passava dias encurvado sobre a escrivaninha desenhando coisas que eu não conseguia ver. Até que um dia veio correndo em minha direção, eu ri, ele enfureceu e largou-me aqui.
Todo dia ele me obriga a escrever as mesmas coisas neste bloco imundo. Diz que eu preciso passar por esse ritual de limpeza. Todo dia eu descrevo minhas sensações e a cada dia o texto fica mais curto, mais frio, mais indiferente. Assim como ele. Meu mestre. Envolveu-me com suas letras difíceis, seus jogos de sedução e suas armadilhas. Talvez eu tenha aprendido. Quando ele resolver tirar-me daqui eu não sei o que pode acontecer, mas de algo eu tenho certeza, ele precisa de um ritual de limpeza e eu estarei apta para aplicá-lo com maestria.
terça-feira, 25 de novembro de 2008
Era
Ela olhava para tela do computador, os olhos fixos naquelas linhas tão afiadas. A respiração começava a falhar, aos poucos, como se o último fio de ar se esvaísse de seus pulmões comprimidos e a garganta se fechava para nunca mais abrir. Não podia saber se o que escorria de seus olhos eram realmente lágrimas, na verdade não sabia de nada. Por um instante infeliz seu corpo deixara de responder aos seus comandos, o lábio inferior tremia a cada tentativa de colocar um pouco de ar dentro de si... Já não importava tanto, realmente, respirar ou não, para que o esforço? Era inútil, a tentativa mais inútil de toda sua vida. E a vida mais inútil de toda sua tentativa.
terça-feira, 18 de novembro de 2008
S
sábado, 15 de novembro de 2008
A parte sem o todo
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
Devaneio
O som balançava pelo quarto, bem alto, não se importava com os vizinhos, estava deitada na cama viajando pela sua cabeça, pensando em coisas além da realidade de olhos fechados e sentidos completamente aguçados. O calor seria inebriante se não fizesse sua pele melar com o suor, não gostava da sensação, não quando estava sozinha. Sozinha preferia o ar fresco, a pele bem lisa e a respiração calma, não ofegante como se cada bufada de ar em seus pulmões fosse uma faca fina em brasa. Por mais que o calor a fizesse ter ímpetos de se mover pela cama, rolar pelas cobertas perfeitamente esticadas na busca de uma posição menos incomoda nesse dia ela não tinha forças. Estava esgotada e entregava todas sua disposição restante para o som que invadia sua cabeça e remexia seu interior com sensações novas, estranhas, feito ondas de adrenalina percorrendo cada milímetro de seu corpo. Não sabia mais o que era realidade e o que era a música bem tocada e perturbadora, não distinguia mais onde começava seu corpo e onde começava o ar pesado e úmido de seu quarto, sabia apenas que, se ficasse deitada, em alguma hora de seus devaneios levitaria na espuma de suas fantasias. Era a voz, ou as mãos, ou ambas, de algum modo aqueles acordes e aquelas palavras ritmadas estavam deixando-a em um estado diferente do esperado quando se ouve uma música, sua respiração seguia a melodia e os lábios dublavam em silêncio. O calor potencializava a sensação de estar perfeitamente acompanhada. Deixou-se levar pela respiração, pela letra, os sussurros, suspiros, agudos, velozes, tudo foi caindo no êxtase fulminante, seu peito movia-se rapidamente, estava ficando sem ar. Suava muito, provavelmente já havia molhado a cama, as roupas... As roupas! Queria tirá-las todas, sentia-se presa, impossibilitada de seguir as cordas, sua pele queimava. Apertou as pálpebras com mais força, soltou um grito surdo, um suspiro de alívio e apertou o play novamente.
terça-feira, 7 de outubro de 2008
E...
Quando a vi ela andava sob os raios dourados do sol da manhã, seus olhos contemplavam o nada a sua frente e as folhas estalavam suaves com seus passos distraídos. Eram seus braços que dançavam no ar, seus cabelos que brilhavam no movimento constante... Era qualquer coisa além da compreensão de um observador, além do entendimento dos leigos. Simplesmente o êxtase de uma epifania qualquer. E seu corpo dançava com a música que supostamente ouvia, seus olhos miravam o profundo de sua mente e os lábios dublavam uma poesia inconcebível. E fugia da realidade aquela figura singela e perturbada. Por fora tão serena e nos seus olhos tão soturna, era o contraste de seus impasses. Era apenas a música que fluía com o vento.
domingo, 5 de outubro de 2008
Bastava o olhar e o silêncio
Eu não queria abandoná-lo, nunca tal idéia passara pela minha cabeça... Vivíamos num silêncio mútuo desde o começo, mas não nos atrevíamos a mudar o curso das coisas por maior que fosse o nosso carinho. Mas o que eu digo? Mal inicio e já rego de mentiras as poucas linhas que espremo da minha memória. Não, não vivíamos, eu vivia. Eu vivia em um silêncio absoluto. Eu e somente eu, ninguém mais. Ele, bom, ele existia, mas comigo não vivia, para mim apenas existia em toda sua santidade, existia longe, além das minhas mãos e distante de mais dos meus sentimentos mais puros.
Eu não queria abandoná-lo, não podia deixar escapar metade da minha vida. Eu vivia em um silêncio absoluto, isolava-me de todas as possíveis relações humanas, abominava constantemente as conversas, limitava-me apenas a olhar. E o gelo foi se hospedando dentro de algo que ouso chamar vontade, frio e rigidez, nada mais. Nunca me passou pela cabeça a idéia de abandoná-lo, contudo nada fazia eu para mudar a real situação, eu era um ser seco e mudo e por mais que o adorasse eu não sabia como fazê-lo entender, eu não sabia como falar. Ao meu desejo bastava apenas o olhar e silêncio.
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
Batalha Mental
domingo, 21 de setembro de 2008
Nada
Seus olhos fugiram pelo horizonte
No azul claro de qualquer sonho
Naquelas linhas tortas
Simples e sãs.
E seus lábios cantavam alguns versos
Pequenos, tristes e simples.
Suas mãos congelavam
Ao tocar nada.
Nada, resultado daquele sonho,
Nada, paisagem de sua vida,
Nada que então procura
O olhar que foge.